setembro 22, 2021
Entrevistas Personagens

Baralhos!!! Origem, história e curiosidades em entrevista com Cláudio Décourt, especialista e colecionador. Primeira parte.

Primeira Parte:

Cláudio Roberto F. Décourt é natural de São Paulo-SP nascido em 21 de setembro de 1950. Engenheiro Naval com especialização em Gerenciamento de Construção Naval no Japão e, também, em Gerenciamento de Empresas de Navegação, em curso coordenado pela UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).

De 2004 a 2008 Décourt foi presidente da IPCS (International Playing Card Society), uma das mais eruditas sociedades reunindo colecionadores e estudiosos de baralhos, com sede na Inglaterra e com sócios em todo o mundo. Em 2004 recebeu o prêmio “Sylvia Mann Memorial Lecture”, dado ao mais importante trabalho da convenção anual da IPCS. Sylvia Mann foi quem organizou mundialmente o colecionismo de baralhos, tendo sido a primeira presidente da IPCS.

Confira a entrevista:

1 – Como e quando surgiu o seu interesse por cartas e baralhos?

– “Acho que sempre gostei de baralhos. Lembro que deveria ter uns sete anos quando algumas primas me mostraram um jogo com cartas. Acho que foi paixão à primeira vista! Pelos baralhos… Desde ai sempre me encantava ver croupiers manipulando cartas em casinos e em mesas de jogo, que assistia em filmes e programas de televisão.”

2 – Como definiria as seguintes palavras: baralhos e cartas.

– “Uso, para baralho a definição: “Conjunto de objetos planos e uniformes (denominados cartas), que apresentam em uma de suas faces símbolos que podem ser agrupados em conjuntos homogê­neos (denominados naipes); cada naipe forma uma série composta por várias cartas de valores diferentes e sequenciais. A outra face (denominada dorso) apresenta ornamento decorativo, repetido em todas as cartas (caso mais comum, modernamente) ou não apresenta nenhum elemento impresso, o que ocorre na maioria dos baralhos produzidos antes do século 19. O conjunto é utilizado, principalmente, como apetrecho de vários jogos, seguindo regras específicas.”

3 – Para quais fins baralhos e cartas são utilizados?

– “Os principais são: jogos, mágicas e previsão do futuro. Outras aplicações são encontradas, mas são relacionadas principalmente com as características físicas das cartas, o que não tem ligação com as características de um baralho, como descrevo acima.”

4 – Quais os tipos de materiais utilizados para a confecção dos mesmos?

– “Atualmente temos baralhos de cartão e de plástico. No passado já tivemos baralhos produzidos em celulose, alumínio e até aço! Mas, estes são excentricidades, apenas curiosidades.”

5 – Existem algumas teorias quanto à origem das cartas e dos baralhos. Uma delas é de que teriam surgido na China no século X. Qual a sua opinião a respeito disto?

– “Existem muitas especulações sobre a origem do baralho. Muitas são repetições de pseudo teorias, sem fundamento e provas. A tese atualmente mais provável, foi proposta e defendida pelo Prof. Sir Michael Dummett, uma das maiores autoridades mundiais em lógica, professor desta matéria na Universidade de Oxford, e ex-presidente da IPCS. Segundo seus estudos, e com provas muito sólidas, o baralho europeu, usado atualmente em várias versões, seguindo, no entanto, a mesma estrutura básica, surgiu na segunda metade do século 14 (em torno de 1360), baseado em um jogo usado pelos ‘mamelucos’. Estes são conhecidos já no século 13, como escravos de elite componentes do exército da dinastia Ayyubid, que então governava o Egito. Sua designação original é Mamluk traduzido para o português com a mesma grafia dos mamelucos da história do Brasil, mas com etimologia e história distintas. Há registro de jogos de cartas na China, já no final do século 13, mas todos eles têm características bastante diferentes dos baralhos como os conhecemos posteriormente na Europa, e que originaram os baralhos que hoje usamos.”

Baralho mamelucos, que deu origem ao baralho europeu moderno. Reprodução (1972; coleção Décourt) de original (1520) atualmente no Museu Topkapi em Instambul.

 

6 – Para o que eram utilizadas as cartas e os baralhos em seus primórdios?

– “A origem sempre foi a de ser um instrumento de jogo. Um dos mais versáteis instrumentos de jogo, pela multiplicidade de jogos que se utilizam dele.”

7 – Como evoluíram as cartas e os baralhos?

– “O contato dos mamelucos com a Europa se deu originalmente na Itália (região do Veneto) e na Espanha, dominada durante muito tempo pelos ‘sarracenos’, vários deles de origem mameluca. Quando os europeus conheceram esse jogo, logo se apaixonaram e a ‘moda’ se espalhou como fogo em palheiro. Inicialmente em várias regiões da Itália e na Espanha, depois na Alemanha (ou no que hoje chamamos de Alemanha…), Império Austro Hungaro, Suíça, etc.”

8 – O que pensa sobre a evolução do baralho até os dias de hoje e também para o futuro?

– “O baralho tem a característica que ter sido criado no século 13/14 e até hoje apresentar as mesmas bases de desenho e estrutura. Sem dúvida um feito notável. Até hoje, mesmo em nossos computadores usamos os desenhos que, a menos de pequenas variações, foram concebidos há mais de 600 anos! E acho que isto ainda deve continuar por muito tempo ainda!”

9 – Quantos itens há em sua coleção?

– “Cerca de 3.200 peças, entre maços (maioria), cartas avulsas, folhas ainda não recortadas e alguns em formato de livros.”

10 – Como eles estão categorizados?

– “Tenho preferência por três tipos básicos de baralhos, mas não exclusivamente: baralhos do modelo internacional, que é o padrão mais comum atualmente, como os usados nas partidas de pôquer, por exemplo; baralhos desenhados e concebidos por artistas, muitos dos quais fogem de qualquer padrão; e baralhos concebidos ou utilizados para mágicas, hobby que também gosto muito, exclusivamente fazendo mágica com baralhos, a chamada ‘cartomagia’. Mas, embora dê preferência a estes tipos, tenho na minha coleção vários outros tipos, não só para ter exemplos de vários modelos, como para acomodar exemplares que recebo como presente. Fisicamente estão armazenados em gavetas, cronologicamente pela ordem de aquisição. Tenho um banco de dados relacional, desenvolvido em Access, que contêm um conjunto grande de informações sobre cada peça, e que permite recuperá-las por quaisquer de suas características (tipo, fabricante, país de fabricação, sistema de naipe, e todo tipo de detalhe usado para descrever cada uma delas).”

11 – A quais deles o senhor tem maior apreço? Por quê?

– “Vários… Acho que nas perguntas seguintes destaco melhor alguns deles. Talvez possa destacar um deles por ter uma importância especial para mim: foi desenhado por minha mulher (Leonor Décourt, artista plástica), e produzido durante cerca de 10 anos pela Copag; trata-se do baralho EPOC, baseado no baralho internacional, mas com desenho especial, em fundo preto.”

Baralho desenhado por Leonor Décourt,  fabricado e distribuído pela Copag de 2004 até 2013.

12 – Quais itens são mais curiosos?

– “Baralho de menor dimensão da coleção: italiano, com 2,9 x2 cm. O maior foi produzido na Bélgica, e tem 33 x 25 cm. Há baralhos com formatos incomuns, como quadrados, círculos, triangulares, sextavados, em formato de leques, especiais para serem usados em submarinos, enfim uma gama enorme de variedades, dando vazão à criatividade humana.”

 


Baralhos!!! Origem, história e curiosidades em entrevista com Cláudio Décourt, especialista e colecionador. – Segunda parte.


Baralhos!!! Origem, história e curiosidades em entrevista com Cláudio Décourt, especialista e colecionador. – Terceira parte.

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